A história dos povos indígenas na ditadura militar é caracterizada pelo etnocídio e pela expropriação de terras. Tais conflitos se iniciaram na época colonial, mas perduraram no tempo, perpassando a Primeira e a Segunda República, os anos dos governos JK e Jango e adentrando a Ditadura Militar brasileira.

Contexto Durante o Governo Militar, as decisões eram tomadas a partir de uma lógica de “Progresso a qualquer custo”, com argumento de que o Brasil tinha potencial para ser mais relevante no cenário internacional, mas precisava se livrar daquilo que representava o “passado” e o "atraso" (políticas assistencialistas, protecionismo econômico, pouca integração entre o interior e os centros urbanos, etc).

Apesar do conhecimento disponível sobre a violência de Estado cometida contra os povos indígenas durante a ditadura estar muito longe de representar a totalidade dos acontecimentos, muito do que se sabe se deve às informações do Relatório Figueiredo, um documento histórico crucial que delatou graves violações de direitos humanos contra povos indígenas durante o regime militar brasileiro. Elaborado em 1967 pelo procurador Jader de Figueiredo Correia, a pedido do Ministério do Interior, o relatório foi resultado de uma investigação abrangente que visitou mais de 130 postos indígenas em todo o Brasil. O documento ficou desaparecido por 44 anos e acreditava-se que tivesse sido destruído em um incêndio no Ministério da Agricultura. Contudo, ele foi localizado ainda na década de 1990, apesar de apenas ter sido divulgado para o grande público em 2013, auxiliando consideravelmente o trabalho da Comissão Nacional da Verdade (CNV). O relatório registrou um conjunto sistemático de atrocidades, incluindo casos de tortura, genocídio de comunidades indígenas, assassinatos, violência sexual, apropriação indevida dos territórios indígenas, trabalho escravo, epidemias (inclusive induzidas) e massacres aleatórios a grupos indígenas com armamentos pesados. Trata-se de crimes perpetrados majoritariamente com a participação de agentes do Estado, envolvendo inclusive funcionários do Serviço de Proteção ao Índio (SPI). Alguns desses crimes também tiveram a participação de grandes proprietários de terra.

Após anos de denúncias de alguns membros do próprio SPI e da imprensa, foi instaurada a Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) para investigar o órgão. Desse modo, o Relatório Figueiredo corresponde ao relatório final da Comissão. A conclusão da CPI foi que alguns funcionários do órgão usavam de meios ilegais para explorar as atividades agrícolas e artesanais dos territórios indígenas em prol dos próprios interesses econômicos. A Comissão descartou a hipótese de um genocídio perpetrado por uma instituição estatal, considerando-o apenas um caso de corrupção dos sujeitos envolvidos. Os 13 funcionários acusados apenas sofreram sanções, não sendo "aplicadas penalidades no âmbito criminal". Tal decisão desencadeou um escândalo internacional e foi um dos motivos da extinção do SPI em 1967, dando lugar à Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai), então ligada ao Ministério do Interior.

Rodovia Transamazônica

A BR 230, mais conhecida como Transamazônica, é uma rodovia federal e transversal brasileira. Projetada e executada em plena ditadura militar no Brasil, ela coincide com a euforia das grandes obras propostas pelos militares e também com o entusiasmo gerado pela vitória da seleção brasileira sobre o México em 1970. No entanto, sua concepção ainda hoje é tema de debates e controvérsias. Pensada como uma estrada de penetração na Amazônia, que rasgaria a selva, do Nordeste ao Acre, sua concretização, pelo menos nos primeiros anos, trouxe mais danos ao ambiente do que benefícios, assim como para os variados povos indígenas que passariam a viver às margens da rodovia. Se por um lado o Brasil vivia esse momento de ufanismo, por outro lado, o flagelo da seca atingia 1 milhão de moradores do Nordeste, como havia calculado um ministro do Governo à época. Devido ao desastre humanitário, Médici, o presidente no momento, e seus ministros do Planejamento, Transportes, Fazenda e do Interior foram obrigados a visitar a região. Ao fazer uma parada em Recife, Médici fez um discurso contundente e emocionado na reunião com o conselho deliberativo da SUDENE, junto a outros governadores, políticos e militares. Afirmava que tinha atravessado, em suas viagens, regiões com "plantações perdidas" e "lugarejos mortos" , nos quais os homens comiam apenas "feijão e farinha". Havia "crianças desassistidas" e afirmava que "em toda a minha vida nada havia me chocado assim, me havia feito emocionar e desafiar a minha vontade". A partir de então, Médici anunciou que apoiaria a agricultura do Nordeste e fomentaria a colonização em zonas úmidas do Nordeste, do Maranhão, do sul do Pará, no Planalto Central. Poucos dias depois, foi divulgado pela imprensa que 5200 homens e 520 milhões de cruzeiros seriam investidos no que foi chamado de ocupação da Amazônia na manchete da Folha de São Paulo. O jornal também comemorava: "Transamazônica povoará a selva". Após alguns dias, já estava acertado com empreiteiros e empreiteiras o início das obras. A mão de obra viria dos chamados flagelados da seca nordestina. Lendo esses relatos, há quem pense que a Transamazônica teria nascido assim, do gesto emotivo de um ditador. Porém, essa versão da história não é a mais precisa. Assim como tantas outras histórias da ditadura, ela se complexifica quando examinada de perto. O governo militar já havia planejado há muito tempo uma estrada de penetração na Amazônia, a despeito da fome dos "flagelados". À luz de tudo o que haveria de ocorrer com os grupos indígenas, o regime, segundo fontes, teve tempo de sobra para se preparar para as obras.

Em 1967, havia um decreto que propunha a efetiva ocupação dos espaços apresentados como vazios pelo governo, ao que chamavam de povoamento orientado. Um ano antes da viagem de Médici a Recife, já circulavam notícias na imprensa sobre uma estrada rasgando a Amazônia. Era a "grande vereda", a "grande transversal" que cortaria a Amazônia, para ligar o Nordeste ao Acre. Nessa mesma época, o jornal O Estado de São Paulo já chamava a rodovia de "Transamazônica", informando que ela facilitaria a chegada de grandes contingentes de colonizadores. No entanto, perguntas fundamentais foram deixadas de lado no projeto e execução da estrada. Quais seriam as preocupações do governo com o destino das etnias indígenas espalhadas ao longo do trajeto? Elas seriam contatadas quanto tempo antes das obras? Onde exatamente estavam os indígenas? Quantos seriam os médicos e os medicamentos necessários para esses contatos, e quais eram os recursos e a logística empregadas pela Funai? Caso os militares tivessem dificuldades em coletar essas informações, bastaria consultar muitos dos variados sertanistas disponíveis no Brasil de então. Um desses sertanistas era Francisco Meireles. Ele calculava que, em junho de 1970, havia um total de 6 mil a 8 mil indígenas que viviam no curso da rodovia. Dentre os povos citados, estavam Juruna, Krenakarone, Asurini, Parakanã, Rikbaktsa, Suruis, Karajá, Kayabi, dentre outros. De início, muitos sertanistas não acreditavam que a rodovia pudesse causar tamanho danos aos povos indígenas. Eles imaginavam que "a construção da estrada não representaria perigo nem para os índios nem para os "civilizados". Anos mais tarde, contudo, ao saber de um grande desastre que se abateu sobre um dos grupos, o Congresso Nacional começava a tomar conhecimento da grave violação a que estavam sendo submetidos os povos indígenas. Nesse ínterim, o deputado oposicionista Airton Soares, do MDB, afirmava que, se não cabia aos departamentos de estradas e às construtoras saber da existência desses povos ao longo do traçado da rodovia, invariavelmente caberia ao governo sabê-lo. Sob a direção do general Bandeira de Mello, por exemplo, a Funai trabalhava a favor das empreiteiras, protegendo os trabalhos de construção da rodovia e fazendo o possível para evitar choques entre os trabalhadores e os indígenas. Era necessário, segundo orientações de Bandeira de Mello, impedir que os 29 grupos atrapalhassem os trabalhos na região, assim como evitar conflitos para que não atrasasse as obras. Segundo fontes, as mesmas orientações eram passadas a grupos de funcionários da Funai. O que ele pretendia era que as equipes da Funai e mesmo sertanistas, fizessem contato para evitar atritos entre o pessoal das obras, dos engenheiros e das firmas com os indígenas. No entanto, não foi abordada pela imprensa a questão das doenças que poderiam ser levadas aos grupos indígenas, sem proteções imunológicas contra as enfermidades dos "civilizados". A descoberta dessas aldeias e dessa multiplicidade de povos habitando a selva amazônica, não teria sido possível sem as experiências dos sertanistas e das suas equipes de trabalho. As chamadas equipes de atração contavam com um mínimo de dez pessoas, dentre elas o coordenador sertanista, três mateiros, enfermeiros e outros que os auxiliavam. As equipes de atração começaram a operar simultaneamente na selva e, ao mesmo tempo, funcionavam como "fontes de penetração", visto que abriam muitas picadas por onde passavam para buscar os indígenas chamados de “isolados”. Para a etapa inicial dessa penetração na selva, o sertanista, junto com seu grupo, iniciava aquilo que chamavam de "namoro" com os indígenas, isto é, a prática da distribuição de presentes para os nativos, tais como foices, machadinhas, alimentos, tabaco, miçangas e outros artefatos. Dessa forma buscavam que os indígenas se tornassem receptivos e abertos à negociação de uma "paz". Após essa negociação, os grupos de trabalho adentravam a selva e passavam a conhecer a floresta, as comunidades indígenas, seu povo, seus modos de viver e suas culturas. A principal causa para a dizimação de muitos indígenas e mesmo a sua quase extinção, foram as doenças do homem branco "civilizado", para as quais eles não possuíam resistência imunológica. Enfermidades como terçã maligna, disenteria, gripe, malária, catapora, sarampo e febre, se espalharam por diversas aldeias. A chegada de medicamentos e vacinas que eram solicitados demoravam e, quando chegavam, eram insuficientes. Se o discurso do governo era o de que estaria olhando para esses povos indígenas a partir do mundo civilizado, para os proteger de todos os males que poderiam advir para eles, as fontes asseguram o oposto: os diversos males chegaram rápido demais. A despeito das violações contra os indígenas e dos conflitos, em momento algum a construção da Transamazônica foi paralisada.

Reformatório Krenak 🔍Ver artigo principal: Reformatório Krenak O Reformatório Krenak foi criado em 1969 para colocar sob custódia da Polícia Militar os indígenas considerados "desajustados". Este termo era usado para se referir aos que entravam em conflito com o chefe do posto indígena, saíam de suas terras sem autorização, consumiam demasiado álcool (na visão dos administradores) ou cometiam algum delito, mesmo sem julgamento formal. Os indígenas mais fortes eram forçados ao trabalho. Aqueles que se recusavam ou entravam em confronto com as autoridades eram severamente punidos. Já os considerados rebeldes eram colocados em um local chamado "cubículo", onde ficavam por dias, com água pingando continuamente sobre suas cabeças, sem receber qualquer alimento. O Reformatório operou no território Krenak até 1972, quando foi transferido para a Fazenda Guarani, localizada em Carmésia, Minas Gerais. Os militares, em busca de apoio para reprimir os Krenak, arregimentaram indígenas de outros povos para auxiliar na repressão. Esses indígenas formaram a Guarda Rural Indígena (GRIN), subordinada à Polícia Militar de Minas Gerais (PMMG). Essa medida representou uma violência contra os próprios indígenas, pois alterou profundamente a dinâmica e as formas de relacionamento entre eles. Além disso, os militares proibiram os Krenak de falarem sua própria língua, gerando assim perseguição à sua identidade cultural. O Reformatório Krenak foi instalado no Posto indígena Guido Marlière, localizado no município de Resplendor, em Minas Gerais. Manoel dos Santos Pinheiro, conhecido como Capitão Pinheiro - oficial reformado da Polícia Militar de Minas Gerais (PMMG) - foi responsável pelo projeto original dos campos de concentração dirigidos ao povo Krenak. Ele culminou décadas de luta judicial pela qual os Krenak retornaram para suas terras indígenas de onde foram expulsos ilegalmente. O intuito desses reformatórios era transformar esses indígenas em "civilizados", integrando-os à sociedade brasileira, já que muitos deles nem falavam o português. Em finais de 1972, o maior nome responsável por conduzir a Funai era o General Bandeira de Mello. Ele tratou com o Secretário de Agricultura de Minas Gerais, Alisson Paulinelli, e o Capitão Pinheiro da PMMG a decisão ilegal de efetuar uma permuta das terras do povo Krenak para uma fazenda de propriedade do estado perto de Carmésia. Consequentemente, tanto os prisioneiros quanto o povo Krenak foram expulsos violentamente para a Fazenda Guarani. Inicialmente, a imprensa caracterizava a GRIN pelos valores do regime militar como a disciplina dos soldados, a presença de hierarquia e a ordem restabelecida. Contudo, em 1973 os meios de comunicação e os setores mais críticos do indigenismo começaram a descrever os problemas da GRIN, tanto nos desrespeitos às autoridades tradicionais quanto suas violências e os altos custos da manutenção. Assim, em 1974, Bandeira de Mello propôs a sua desativação, mas o processo demorou para ser concluído. Em 2021, o reformatório foi sentenciado como um crime de genocídio contra o povo Krenak. As prisões também foram consideradas ilegais, sendo comparadas a campos de concentração.

Movimento indígena A formação de uma consciência interétnica ou pan-indígena no movimento indígena brasileiro é vista como recente e originada das interações com missionários por muitos indígenas. A percepção de que os vínculos interétnicos entre os povos indígenas se fortaleceram, principalmente devido à atuação de agentes externos como missionários e antropólogos, reflete o papel desses indivíduos na luta indígena. Embora a afirmação da identidade indígena, por etnicidade ou indianidade, seja um aspecto importante da mobilização, ela não se reduz a isso, estando ligada aos tipos de laços sociais que estruturam o movimento. A resistência dos povos indígenas se fundamenta na ideia de um futuro coletivo. Um futuro que pudesse garantir a continuidade das suas tradições e de sua cosmovisão. A política indigenista da pax colonial, promovida pelo Estado brasileiro e por diversos agentes como fazendeiros, garimpeiros e empreiteiros de grandes obras, visa suprimir as diferenças étnicas, transformando-as em desigualdades sociais e explorando os recursos naturais. Essa abordagem busca a homogeneização das culturas indígenas, negando suas especificidades. Em contraposição, a "cosmopolítica da paz provisória" é representada pelo movimento indígena organizado a partir dos anos 1970, que vai além de uma simples negociação, abrangendo diversas formas de articulação política. Esse conceito de paz implica um conflito contínuo, não pela busca de confronto direto com o Estado, mas pela luta por autodeterminação e controle das terras indígenas, o que revela uma tensão irresolúvel enquanto as terras forem consideradas parte do território nacional brasileiro. O movimento indígena brasileiro é formado por uma rede de interações entre líderes indígenas, missionários, antropólogos e organizações diversas, como eclesiásticas e de apoio, que se engajam em conflitos políticos e culturais. O movimento busca a autodeterminação indígena, autonomia sobre as terras e a gestão de seus direitos, sustentado por uma solidariedade diplomática. Esse conceito de solidariedade diplomática descreve o tipo de vínculo social que une os indígenas, indo além da noção de identidade coletiva. Os líderes indígenas, as novas lideranças interétnicas, assim como os missionários e antropólogos que interagiam diretamente com as comunidades enfrentaram questões pragmáticas em nível local. Isso incluía negociações com a FUNAI, ações de retomada de terras ocupadas por fazendeiros e a gestão interna do poder nas comunidades, onde líderes mais alinhados ao mundo "branco" eram ao mesmo tempo necessários e desconfiados. Com o tempo, surgiu a necessidade de uma organização regional para conectar grupos com desafios semelhantes, o que levou à criação de regionais do Conselho Indigenista Missionário (CIMI), organização da Igreja Católica fundada em 1972 - que reuniu pela primeira vez lideranças indígenas brasileiras - e à formação da União Nacional Indígena em 1980, a primeira instituição indígena nacional. Outras organizações regionais também começaram a surgir, tornando-se estratégias fundamentais de mobilização. Além do nível local e regional, o movimento indígena no Brasil também alcançou uma dimensão nacional, especialmente durante a resistência à ditadura e na Assembleia Nacional Constituinte de 1987-1988. Embora o movimento buscasse uma articulação nacional, sua abrangência era limitada, com muitas reuniões possuindo um caráter mais regional. No entanto, em momentos-chave, como a luta contra o Decreto de Emancipação de 1978, a mobilização nacional se fez presente. Paralelamente, o movimento também adquiriu uma dimensão continental, influenciado por discussões sobre direitos indígenas promovidas por missionários e antropólogos e por eventos como o Simpósio de Fricção Interétnica de 1971, que introduziu conceitos como "etnocídio" e "unidade pan-indígena latino-americana". Globalmente, o debate sobre direitos indígenas ganhou força após a Segunda Guerra Mundial, com a criação da ONU, da UNESCO e a incorporação da OIT. O princípio da autodeterminação dos povos foi amplamente debatido, influenciando os direitos indígenas. A assinatura de tratados internacionais, como a Convenção no 107 da OIT (1957), e a realização de eventos como o Tribunal Russell IV sobre os Direitos dos Povos Indígenas das Américas, em 1980, também contribuíram para o movimento. Além disso, organizações internacionais, em sua maioria europeias, financiaram projetos de proteção aos povos indígenas e apoiaram o movimento indígena no Brasil. Até a promulgação da Constituição de 1988, os indígenas brasileiros aldeados eram tutelados, considerados "incapazes" perante a lei. O episódio onde a FUNAI tentou barrar a ida do então ativista indígena Mário Juruna ao Tribunal de Russell, em 1980, é um claro exemplo de como essa concepção era utilizada para impedir a mobilização política dos indígenas.

Decreto de emancipação (1978) O Estatuto do Índio, sancionado por Médici em 1973, tratou, entre os assuntos, da emancipação tanto individual quanto coletiva de indígenas. Nesse contexto, o Estatuto determinava que a solicitação para emancipação deveria ser feita de forma voluntária. O interesse por trás dessa medida estava na possibilidade de loteamento das terras indígenas, que, ao ficarem sem tutela, poderiam ser submetidas e exploradas economicamente. Em 1976, o então Ministro do Interior, Maurício Rangel Reis, anunciou que haveria alteração na regulamentação da emancipação, ao qual propôs uma "decisão judicial a partir da solicitação da FUNAI". Contudo, sua intenção gerou uma série de críticas, sobretudo de missionários e sertanistas. No ano seguinte, o Museu Nacional/UFRJ, com a assinatura de dezessete antropólogos, divulgou um manifesto contrário à proposta anunciada por Rangel Reis. Em 1978, ano final do governo de Ernesto Geisel, tentou-se passar um Decreto de Emancipação, visando alterar o Estatuto do Índio. A proposta já interessava Maurício Rangel Reis, como uma política para integrar agressivamente os indígenas à sociedade envolvente da época. A ideia não era nova, pois já existiam pessoas da FUNAI que queriam avançar essa proposta. O projeto enfrentou forte resistência dos povos indígenas e da sociedade civil. O Movimento Indígena no Brasil, membros da Igreja Católica organizados no CIMI e a academia, principalmente os antropólogos, se posicionaram diretamente contra a proposta. A principal preocupação com esse Decreto é a possibilidade do desaparecimento da identidade de indígena daqueles que seriam mais vulneráveis aos avanços do governo. Além disso, com a emancipação de povos inteiros, os mais interessados nas terras protegidas em que esses povos viviam seriam a elite da agropecuária. Uma vez emancipados, os indígenas inevitavelmente seriam forçados a entrar na lógica de mercado, convertendo suas terras em propriedades. Uma "falsa emancipação", como diziam à época, que integraria as terras indígenas à União que, posteriormente, seriam devolvidas às comunidades individualmente. Em contraste à isso, os antropólogos propunham a não integração das comunidades indígenas à lógica do mercado, defendendo a autonomia e autogestão para essas comunidades. Com toda a reação negativa à proposta do Decreto, o projeto foi engavetado.

Comissão da verdade Durante o governo Dilma Rousseff, a criação da Comissão Nacional da Verdade (CNV) em 2012 trouxe à tona uma importante oportunidade de investigar as violações sofridas pelas populações indígenas no Brasil. A questão indígena tornou-se um dos 13 objetivos principais do trabalho da CNV. Em suas conclusões, a Comissão da Verdade de São Paulo afirmou categoricamente que “o passado da questão indígena no Brasil é um passado de genocídio”. A atuação da CNV não apenas lançou luz sobre esses abusos históricos, mas também fortaleceu a luta por memória, verdade e reparação, destacando a urgência de discutir e enfrentar o legado da ditadura militar em relação aos povos originários. Esse trabalho possibilitou novos recortes investigativos e aprofundou o debate sobre os crimes cometidos contra os povos originários. Entre as iniciativas relevantes, destaca-se o projeto de pesquisa em antropologia forense da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), intitulado Responsabilidade de Empresas por Violações de Direitos Durante a Ditadura. Embora o foco principal desse projeto não fosse exclusivamente a questão indígena, muitos de seus resultados expuseram os abusos cometidos por empresas contra as populações indígenas, reforçando a necessidade de responsabilização.

Violações de direitos indígenas por empresas durante a ditadura militar Empresas beneficiadas pela ditadura militar foram os principais motores para a execução do projeto econômico de cunho colonialista. Dados importante foram levantados por uma pesquisa conduzida pela Unifesp, que contou com a participação do Centro de Antropologia e Arqueologia Forense (Caaf) em conjunto com o Ministério Público Federal (MPF) e com o Ministério Público do Estado de São Paulo (MPSP), envolvendo 55 pesquisadores. Essa pesquisa surge a partir da doação efetuada pela empresa Volkswagen do Brasil S/A no âmbito do Termo de Ajustamento de Conduta (TAC), como consequência dos resultados dos inquéritos movidos por entidades civis, como o Ministério Público Federal (MPF), o Ministério Público do Estado de São Paulo e o Ministério Público do Trabalho, resultando em um montante de 36 milhões, onde apenas 2 milhões foram destinados à gestão de pesquisas, com o objetivo de investigar 10 empresas, todas elas com denúncias de violações de direitos humanos durante o período. Dentre elas, destacam-se as que cometeram crimes contra povos indígenas, tais como a estatal Itaipu e as empresas privadas Josapar, Paranapanema e Aracruz. Com base nos resultados obtidos por esse projeto de pesquisa liderado pela Unifesp, a Agência Pública lançou diversas publicações a respeito da participação do empresariado na violação dos direitos humanos perpetrada durante a Ditadura, as quais foram englobadas em um editorial especial chamado “Empresas cúmplices da Ditadura”. Dentre os artigos desse especial, dois tratavam da exploração das terras indígenas e de seus povos por empresas que foram apoiadas por órgãos públicos a comando da Ditadura, como a FUNAI. A mineradora de cobre Paranapanema teve grande influência e protagonismo no projeto da transamazônica, juntamente às suas subsidiárias (Taboca), afetando principalmente as sociedades indígenas da reserva Waimiri-Atoari, da etnia Tukano e Kagwahiva. Os territórios desses povos foram atravessados pela construção da BR-174, que teve seu curso modificado para o escoamento da mina de cobre de Paranapanema. O processo envolveu fraudes de mapas da Funai após pesquisas indicarem a presença mineral na área, envolvendo regimes de semi-escravidão dos funcionários indígenas e tortura.

Mulheres indígenas na ditadura militar As mulheres indígenas foram afetadas de diferentes maneiras pela ditadura militar, demonstrando como a questão de gênero foi um fator importante na atuação da repressão. Diversos casos de violência foram relatados pelo relatório Figueiredo, como práticas que incluíam obrigar mulheres indígenas à realização de tarefas agrícolas intensivas, impedindo-as de cuidar de seus filhos, assim como o uso de trabalho escravo infantil. Desse modo, iremos relatar denúncias de casos cometidos, no entanto, por se tratar de temas sensíveis e por respeito às vítimas, optamos por não nomeá-las. Um caso emblemático foi o de uma menina indígena Bororo do Mato Grosso, que foi retirada da escola pelo servidor do SPI, Flávio de Abreu, que a “entregou” para um homem "civilizado" chamado Seabra em troca da construção de um fogão de barro. A menina foi escolhida após Flávio ordenar que ela e as outras estudantes do posto ficassem de pé para que Seabra pudesse escolher. Quando o pai da menina reclamou, Flávio ordenou que ele fosse espancado. Os abusos contra mulheres indígenas foram se repetindo ao longo da ditadura, gerando relatos e denúncias. Foi o caso de uma Yanomami, ocorrido na região do rio Negro, localizado em Maturacá, no Amazonas, que denunciou ter sido assediada sexualmente por um missionário italiano, de quem engravidou. Após o ocorrido, o missionário a abandonou, o que gerou investigações internas e resultou na sua expulsão da congregação religiosa. Após sua saída de Maturacá, em novembro de 1974, o missionário foi admitido pela Funai como coordenador das frentes de atração do programa Waimiri-Atroari, localizado no norte do Amazonas e sul de Roraima, onde novamente se envolveu em casos problemáticos com mulheres indígenas. Uma investigação interna revelou que ele havia estabelecido um relacionamento com uma menina saterê-mauê de treze anos. Ele também manteve um caso com uma indígena de quinze anos. O próprio missionário admitiu ter mantido “namoros” com as três indígenas, embora negasse qualquer relação sexual. Em investigação da Funai foi concluído que havia “um caráter infamante e criminoso” no uso de artifícios e fraudes por parte dos servidores para estabelecer relações com mulheres indígenas, muitas vezes explorando sua vulnerabilidade. A investigação resultou na demissão do italiano em abril de 1983, ordenada pelo então presidente da Funai, o coronel da FAB, Paulo Moreira Leal. Outros relatos levantados pela Funai revelam que um chefe do posto Uaçá, em Oiapoque, no Amapá, desde 1971, teria mantido relações com várias indígenas, sendo pai de 20 filhos. Após isso, casos de abusos foram registrados nas aldeias Karipuna e Palikur, localizadas na região de Oiapoque, ao norte do Estado do Amapá. Em 1973, o atendente de enfermagem da Funai, Francisco de Castro Correia, relatou que, ao visitar uma aldeia Karipuna, percebeu que o responsável pela região passava longos períodos sem fazer visitas, deixando a comunidade sem assistência. Durante estes períodos, os civis de Oiapoque e militares de Clevelândia do Norte entravam na área indígena para cometer abusos sexuais contra mulheres e outras violências contra a população. Correia identificou três mulheres Karipuna que estavam sendo vítimas de prostituição forçada. Ao perguntar ao chefe da Funai sobre as medidas que seriam tomadas, recebeu a resposta de que a culpa era dos pais das jovens ou das próprias indígenas, que "queriam isso", mas que comunicaria à delegacia sobre as violações. Essa resposta deixava claro que as autoridades locais não planejavam agir, embora houvesse uma vaga promessa de comunicar à delegacia da Funai. Além disso, Correia relatou que comerciantes autorizados a entrar na área Palikur exploravam os indígenas, ofereciam bebidas alcoólicas e abusavam das mulheres. Entretanto, apesar destas denúncias, ninguém foi preso. Posteriormente o chefe foi dispensado, não pelo crime cometido, mas por “interesse da administração”. Outro caso de envolvimento de funcionários da Funai e indígenas foi o de Victor Batalha, auxiliar de indigenismo da entidade, que, em meados de 1960, casou-se com uma indigena maruba, com quem teve 3 filhos. Em 1974, Batalha passou a viver com a irmã da esposa, com quem viveu com as duas esposas ao mesmo tempo. No entanto, o líder marubo, João Tuchaua ficou enfurecido com a saída de Maria da aldeia, localizada no Vale do Javari, no Amazonas, soube de outros envolvimentos amorosos de Batalha com outras indígenas. Assim, os indígenas procuraram os missionários nortes-americanos da MNTB (Missão Novas Tribos do Brasil), que atuava na região desde 1963, com uma petição para que Batalha fosse expulso do posto Curuçá. Então, ele saiu da localidade com suas duas esposas e foi morar em uma região longe de Curuçá. Denúncias de violências contra as mulheres indígenas, muitas vezes com o envolvimento de agentes do Estado, foram também frequentes nas assembleias indígenas realizadas a partir da segunda metade da década de 1970. Os temas eram os já mencionados acima, como estupros, indução à prostituição, casamentos forçados e roubo de crianças, dentre outros. O período da ditadura militar também foi um momento do surgimento de importantes lideranças entre as mulheres indígenas. Uma delas foi Quitéria Binga, Pankararu da aldeia Brejo dos Padres do município de Jatobá (PE), que se destacou como uma hábil negociadora com os agentes da Funai, conseguindo importantes benefícios para a sua comunidade. Ela teve destaque nacional quando esteve presente em Brasília nas discussões da Assembleia Constituinte sobre os artigos 231 e 232, que deveriam assegurar os direitos dos povos indígenas. Na ocasião, ela liderou a entrada dos indígenas no Congresso Nacional. Esse protagonismo não foi registrado em documentos escritos, mas é sempre lembrado oralmente pelos que presenciaram o acontecimento. Por conta da projeção adquirida naquele momento, Quitéria Binga passou a ser reconhecida nacional e internacionalmente, participando de programas para falar sobre o movimento indígena e ajudando a divulgar as suas necessidades. Ela se tornou umas das lideranças femininas indígenas mais conhecidas do país. Nesse período, Eliane Potiguara também criou junto às outras indígenas o GRUMIN (Grupo Mulher e Educação Indígena), uma das primeiras organizações fundadas na década de 1980 para combater o racismo praticado contra os indígenas e a discriminação de gênero. Na militância e à favor da proteção dos direitos indígenas durante a ditadura militar, Eliane Potiguara participou dos debates na Comissão Pró-Índio e no CIMI (Conselho Indigenista Missionário), em Brasília. Como coordenadora do GRUMIN, a ativista destacou-se como uma importante liderança no país, cujo trabalho era voltado à afirmação do papel da mulher indígena, enaltecendo a figura feminina e enfatizando sua importância na construção do caráter humano. Sua atuação ainda se deu na proteção e no cuidado dos direitos à saúde e educação das mães, com extensão desses benefícios aos filhos. A notoriedade dessas conquistas impulsionou o protagonismo de outras lideranças femininas, revelando o caráter combativo destas mulheres contra projetos de empresas que contribuíam naquele contexto para a destruição do meio ambiente. Na Conferência Mundial sobre o meio ambiente no Rio de Janeiro, a Eco92, organizada pela ONU, houve a participação ativa do GRUMIN na criação do Comitê Intertribal (500 anos de resistência) promovido por Eliane, após a abertura democrática no Brasil. Contudo, ainda sob a influência da ditadura militar, o comitê sofreu repressão política, com o intuito de paralisar o movimento. A coordenadora do GRUMIN, entre outras importantes lideranças como Ailton Krenak - então coordenador da UNI - e algumas mulheres indígenas - Doroty Bakairi, Anachi Kaiowá, Quitéria Pankararu - não retrocederam em suas ações, deram fala aos indígenas por serem conhecedores do assunto, mais preparados para denunciarem os estragos das ações humanas na natureza avaliando soluções por morarem nas regiões afetadas. Segundo Eliane, recebeu apoio junto à ONU através de investimentos no combate à discriminação. Participou na formação da UNI (União das Nações Indígenas) conscientizando a nação da importância das reivindicações indígenas e através das múltiplas ações por meio da luta indígena com apoio das ONGs a constituição federal de 1988 determinou mudança na lei assegurando o direito as terras de seus antepassados transformando- os em cidadãos brasileiros. Mario Juruna deputado federal indígena dos Xavantes teve grande protagonismo nessa conquista sendo a voz dos povos dentro do congresso nacional possibilitando o acesso as reivindicações. Elaine Potiguara se engajou politicamente na década de 1980. Nascida no Rio de Janeiro, não conhecia a história de constante luta por território dos potiguaras. Ao se conscientizar de suas origens desejou conhecê-los a fim de conectar-se com seues antepassados. Assim partiu para a Paraíba ao encontro da aldeia Potiguara na Bahia da traição. A proximidade com seu povo a incentivou a participar dos movimentos sociais que possibilitou o contato com outras importantes lideranças do movimento indígena, entre eles, Ailton Krenak, Álvaro Tukano e, o então candidato a deputado federal, Mario Juruna, representante do Xavantes.

Ligações externas O genocídio dos cintas-largas | O Massacre do Paralelo 11 (Vídeo) Incontáveis: Episódio 6: Povos indígenas na ditadura (Vídeo) Reformatório Krenak (Vídeo)==Referências==

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