Jandyra Ramos Waters (Sertãozinho, 10 de março de 1921 – São Paulo, 11 de janeiro de 2025) foi uma artista plástica brasileira — pintora, escultora, gravadora e poeta — reconhecida como uma das pioneiras da abstração geométrica no Brasil. Sua obra evoluiu de paisagens figurativas e naturezas-mortas para formas geométricas vibrantes, marcadas pelo uso intenso de cor e simetria. Além da produção visual, Waters publicou três coletâneas de haicais e permaneceu ativa artisticamente até os 103 anos.
Biografia Waters nasceu em Sertãozinho, interior de São Paulo, em 1921. Em 1945, aos 24 anos, viajou para a Europa como voluntária do programa pós-Segunda Guerra da ONU (UNRRA). No exterior, fixou-se na Inglaterra: estudou pintura no County Council Art School em Sussex em 1947. Durante esse período conheceu e casou-se com o médico e major britânico Eric Dale Waters, adotando o sobrenome dele, e juntos tiveram um filho, Martin. Morou na Inglaterra até 1950, quando retornou definitivamente ao Brasil. Em 1951 continuou seus estudos artísticos em São Paulo – cursando escultura e cerâmica com André Osze, gravura com Darel e Marcelo Grassmann, pintura com o japonês Yoshiya Takaoka, pintura mural com Clóvis Graciano na Fundação Armando Álvares Penteado, e História da Arte na USP em 1952. Waters faleceu em 11 de janeiro de 2025 em São Paulo, aos 103 anos.
Carreira artística No início de sua carreira, Waters produziu obras figurativas: paisagens, naturezas-mortas e cenas domésticas em que destacavam-se objetos cotidianos. A essa fase seguiram incursões pela abstração informal nos anos 1960, com telas de textura espessa e paleta de cores contrastantes. Ao final da década de 1960 participou de importantes salões e bienais — entre eles a 9a Bienal Internacional de Arte de São Paulo (1967) e a 2a Bienal de Artes Plásticas da Bahia (1968) — e transitou para uma abstração orgânica, criando composições com formas recortadas (semelhantes a colagens de papel colorido) e explorando baixo-relevo em madeira (séries Metamorfose, anos 2000). A partir dos anos 1970 consolidou um estilo geométrico-construtivo, caracterizado por composições simétricas e cores vivas — um período que o crítico José Geraldo Vieira chamou de “neo-mondrianismo”. Em síntese, sua obra combina a racionalidade das formas geométricas a conteúdos místicos: o MASP observa que ela emprega “frestas, janelas e mandalas” sugerindo espiritualidade nas suas imagens geométricas. Além da pintura e escultura, Waters dedicou-se também à poesia, publicando três livros de haicais ao longo da vida.
Relação com a abstração geométrica brasileira A trajetória artística de Jandyra Waters está vinculada ao desenvolvimento da abstração geométrica no Brasil, embora sua produção tenha seguido um percurso singular em relação aos movimentos concretos e neoconcretos. Após uma fase inicial ligada à figuração e ao abstracionismo informal, a artista consolidou, a partir da década de 1970, uma linguagem baseada em estruturas geométricas rigorosas, marcada pelo uso de cores intensas, composições simétricas e forte organização espacial. Sua obra dialoga com a tradição construtiva brasileira, que ganhou destaque a partir dos anos 1950 por meio de grupos como Ruptura, em São Paulo, e Frente, no Rio de Janeiro. Entretanto, diferentemente dos artistas concretos que defendiam uma arte baseada em princípios matemáticos e objetivos, Waters desenvolveu uma abordagem mais intuitiva da geometria. A curadora Denise Mattar descreve sua produção como uma "geometria sensível", caracterizada pela combinação entre rigor formal, vibração cromática e lirismo visual. Estudos recentes têm ressaltado que a artista ocupou uma posição particular na história da abstração brasileira. Segundo Talita Trizoli, a trajetória de Jandyra Waters evidencia como artistas mulheres vinculadas à abstração geométrica foram frequentemente marginalizadas pelas narrativas historiográficas centradas nos protagonistas masculinos do Concretismo e do Neoconcretismo. Nesse contexto, sua obra vem sendo progressivamente reavaliada como uma contribuição relevante para a ampliação do campo da abstração geométrica no Brasil. A singularidade de sua produção reside justamente na articulação entre construção geométrica, experimentação cromática e referências simbólicas. Essa combinação permitiu que sua obra transitasse entre o construtivismo, o misticismo e a abstração lírica, constituindo uma interpretação própria da herança geométrica brasileira.
Recepção crítica Ao longo de sua trajetória, Jandyra Waters recebeu atenção de importantes críticos de arte brasileiros, que destacaram tanto a originalidade de sua pesquisa formal quanto a singularidade de sua inserção no campo da abstração geométrica. Desde as primeiras décadas de sua produção abstrata, sua obra foi associada a uma linguagem construtiva marcada pelo equilíbrio entre rigor compositivo e sensibilidade poética, característica que a diferenciou de vertentes mais ortodoxas do Concretismo brasileiro. Entre os críticos que analisaram sua produção, destaca-se o psiquiatra, colecionador e crítico de arte Theon Spanudis, um dos principais defensores da arte abstrata no Brasil. Spanudis identificou em suas obras uma investigação consistente das possibilidades expressivas da geometria, ressaltando a maneira como a artista conciliava ordem estrutural e dinamismo visual. Para o crítico, suas composições transcendiam a simples organização formal dos elementos geométricos, produzindo ritmos e tensões espaciais que conferiam vitalidade às superfícies pictóricas. Sua apreciação inseriu Jandyra Waters no conjunto de artistas responsáveis pela renovação da abstração brasileira nas décadas posteriores ao surgimento dos movimentos concretos. Também o crítico e físico Mário Schenberg dedicou atenção à produção da artista. Em seus comentários, Schenberg destacou a dimensão espiritual presente em suas composições, observando que a geometria utilizada por Waters não se limitava a um exercício racional ou matemático. Segundo sua interpretação, as formas, cores e estruturas organizadas pela artista funcionavam como instrumentos para a manifestação de conteúdos simbólicos e contemplativos, aproximando sua obra de uma experiência estética voltada à percepção sensível e à transcendência. Essa leitura contribuiu para consolidar a compreensão de que sua produção ocupava uma posição singular dentro da tradição construtiva brasileira. Análises posteriores aprofundaram essa interpretação. A curadora Denise Mattar observa que a obra de Jandyra Waters desenvolveu uma linguagem geométrica própria, marcada pela combinação entre disciplina formal e liberdade inventiva. Ao examinar diferentes fases de sua carreira, Mattar enfatiza a permanência de elementos estruturais que revelam o interesse da artista pela ordem construtiva, ao mesmo tempo em que destaca a intensidade cromática e o caráter lírico de suas composições. Para a curadora, a artista construiu um universo visual no qual a geometria deixa de ser apenas um princípio organizador para tornar-se veículo de expressão poética. Nas últimas décadas, a recepção crítica de sua obra passou por um processo de reavaliação historiográfica. Pesquisas recentes têm destacado o papel de Jandyra Waters no contexto da arte abstrata brasileira e discutido as razões de sua relativa invisibilização em narrativas tradicionais da história da arte. Nesse sentido, a historiadora da arte Talita Trizoli argumenta que a trajetória da artista exemplifica os mecanismos que contribuíram para a marginalização de muitas mulheres vinculadas à abstração geométrica no Brasil. Segundo a autora, embora sua produção tenha sido reconhecida por críticos e instituições ao longo de sua carreira, ela não alcançou o mesmo destaque historiográfico concedido a diversos artistas homens associados aos movimentos concretos e neoconcretos. A redescoberta de sua obra por meio de exposições retrospectivas, pesquisas acadêmicas e publicações especializadas tem contribuído para ampliar o reconhecimento de sua importância na arte brasileira do século XX. Atualmente, a crítica tende a compreender Jandyra Waters como uma artista que desenvolveu uma interpretação singular da abstração geométrica, articulando construção formal, experimentação cromática e interesse por dimensões simbólicas e espirituais. Essa leitura tem reforçado sua posição como uma das figuras relevantes da produção abstrata brasileira, especialmente no contexto das revisões historiográficas voltadas à valorização da contribuição das mulheres artistas.
Exposições Waters participou de diversas exposições individuais e coletivas importantes na cena artística brasileira. Expôs regularmente de 1956 a 1990, tendo suas obras colecionadas pelas principais instituições de arte do país. Entre as mostras individuais destacam-se:
1979 – Museu de Arte Contemporânea da USP (São Paulo, SP) 1984 – Itaúgaleria (São Paulo, SP) 2015 – “Ritmo do Tempo”, Galeria Almeida & Dale (São Paulo, SP) 2021 – "Jandyra Waters", Galeria MaPa (São Paulo, SP) 2025 – “Jandyra Waters: 104 anos”, Clube Athletico Paulistano (São Paulo, SP) 2025 – "We Lost Lots of Beautiful Things", Elizabeth Xi Bauer Gallery (Londres, Inglaterra) Em exposições coletivas, participou de salões e bienais nacionais de relevo, tais como: 21o e 22o Salão Paulista de Belas Artes (São Paulo, 1956–57); várias edições do Salão Paulista de Arte Moderna (São Paulo, 1957–62); 9a Bienal Internacional de São Paulo (1967); 2o Salão Nacional de Artes Plásticas da Bahia (Salvador, 1966 e 1968); 7o Panorama de Arte Atual Brasileira (MAM-SP, São Paulo, 1975); entre outras mostras temáticas. Recentemente, em 2025, uma exposição em Londres na galeria Elizabeth Xi Bauer colocou Jandyra Waters em diálogo com o Theodore Ereira-Guyer (Reino Unido, 1990).
Estilo e legado A obra de Jandyra Waters é marcada pela transição do figurativismo ao abstracionismo geométrico. Suas composições costumam usar diagonais simétricas e cores vivas que remetem a conteúdo espiritual. A curadora Denise Mattar descreveu Waters como “artista construtiva, mas nunca concreta”, referindo-se ao caráter intuitivo e não-radical de sua abordagem geométrica. Pesquisadoras contemporâneas têm apontado que, embora tenha circulado em salões importantes, Waters sofreu com a exclusão de muitos relatos artísticos dominados por colegas masculinos: Talita Trizoli observa que Waters “ocupou um lugar ainda frágil no sistema” da arte brasileira e só recentemente vem sendo reavaliada. De fato, críticas contemporâneas salientam a importância de seu papel pioneiro na abstração brasileira, e exposições recentes têm resgatado seu legado. O comentário da crítica Cynthia Garcia exemplifica esse redescobrimento: segundo ela, Waters esteve “há muito esquecida, mas aos 92 anos tornou-se febre entre os colecionadores brasileiros de abstração geométrica”, impulsionada por mostras curatoriais.
Análise formal da obra A produção artística de Jandyra Waters caracteriza-se pelo uso sistemático da geometria como elemento estruturador da composição, constituindo uma linguagem visual que articula ordem, ritmo e equilíbrio. Embora vinculada ao campo da abstração geométrica, sua obra desenvolveu soluções formais próprias, marcadas pela combinação entre rigor construtivo e sensibilidade poética. Ao longo de sua trajetória, a artista explorou diferentes suportes e técnicas, mantendo como constante o interesse pelas relações entre forma, cor e espaço. Um dos aspectos mais marcantes de sua produção é a organização geométrica das composições. Suas obras frequentemente são construídas a partir de formas básicas, como quadrados, círculos, triângulos e retângulos, distribuídos segundo estruturas simétricas ou modularmente organizadas. Essa ordenação confere estabilidade visual às composições, ao mesmo tempo em que cria ritmos internos capazes de conduzir o olhar do observador por diferentes áreas da superfície pictórica. Em muitos trabalhos, a repetição de formas semelhantes produz efeitos de continuidade e expansão, sugerindo movimentos que ultrapassam os limites físicos da obra. A cor desempenha papel fundamental em sua pesquisa artística. Diferentemente da paleta frequentemente reduzida adotada por parte dos artistas concretos, Jandyra Waters empregou cores intensas e contrastantes, explorando suas possibilidades expressivas e perceptivas. Vermelhos, azuis, amarelos, laranjas e verdes aparecem organizados em combinações cuidadosamente planejadas, criando vibrações ópticas e relações cromáticas dinâmicas. A cor não atua apenas como elemento decorativo, mas como componente estrutural da composição, contribuindo para a definição de profundidades, tensões e equilíbrios visuais. Outro elemento recorrente em sua obra é a exploração da simetria. Diversas composições apresentam organizações centradas ou radiais, nas quais as formas se distribuem em torno de um eixo ou núcleo visual. Essa característica aproxima parte de sua produção de estruturas mandálicas, frequentemente associadas a ideias de harmonia, totalidade e contemplação. A presença de formas circulares e irradiantes reforça a dimensão espiritual frequentemente identificada pela crítica em sua obra, sugerindo uma busca por relações entre construção geométrica e experiências simbólicas. A artista também demonstrou interesse pela investigação espacial. Embora grande parte de sua produção se desenvolva no plano bidimensional, suas composições frequentemente produzem ilusões de profundidade e deslocamento. A sobreposição de formas, as variações cromáticas e o uso de graduações tonais criam efeitos que sugerem expansão, contração ou movimento. Em determinadas fases de sua carreira, essa pesquisa levou à produção de relevos e objetos tridimensionais, ampliando sua reflexão sobre as relações entre forma geométrica e espaço físico. Críticos como Mário Schenberg e Theon Spanudis observaram que a geometria presente em suas obras não se reduz a um exercício racionalista. Ao contrário, a organização formal funciona como suporte para uma experiência visual marcada pelo lirismo e pela contemplação. Essa característica distingue sua produção das vertentes mais ortodoxas da arte concreta, aproximando-a de interpretações mais subjetivas da abstração geométrica. Como observa Denise Mattar, a artista desenvolveu uma linguagem em que a precisão construtiva convive com a liberdade imaginativa, produzindo composições que conciliam disciplina formal e expressividade. Desse modo, a análise formal da obra de Jandyra Waters revela uma produção fundamentada na articulação entre geometria, cor e ritmo visual. Sua pesquisa demonstra como a linguagem abstrata pode transcender preocupações estritamente formais, incorporando dimensões simbólicas e sensíveis que ampliam as possibilidades da tradição construtiva brasileira.
Acervo institucional Obras de Jandyra Waters estão presentes em importantes acervos institucionais brasileiros. São exemplos: o Museu de Arte de São Paulo (MASP), o Museu de Arte Contemporânea da USP (MAC-USP), a Pinacoteca do Estado de São Paulo e o Museu de Arte Moderna de São Paulo (MAM-SP). Em 2021, o MASP passou a exibir publicamente uma pintura de Waters (doada à instituição em 2021). A inclusão nesses acervos reforça o reconhecimento institucional tardio mas definitivo de seu trabalho na arte moderna brasileira.
Referências
Bibliografia