Campement de bohémiens (em português: Acampamento de ciganos) é um curta-metragem mudo francês de 1896, dirigido e produzido por Georges Méliès. Registrado com o número 25 no catálogo da Star Film, o filme é atualmente considerado presumidamente perdido. No catálogo norte-americano, o título circulou em três versões: The Bohemian Encampment, Gypsy Camp e Gypsies at Home. Trata-se de um actuality film — registro documental de uma cena cotidiana filmada com câmera fixa — que, segundo o IMDb, provavelmente mostrava um acampamento de ciganos (*bohémiens*, na denominação francesa da época).

Contexto Em 1896, Méliès rodou seus primeiros filmes com sua câmera artesanal, exibindo-os no Théâtre Robert-Houdin, em Paris. O catálogo da Star Film, fundada naquele mesmo ano, numerava cada título de acordo com a ordem de produção, com cada número correspondendo a aproximadamente 20 metros de negativo. Campement de bohémiens é o vigésimo quinto título do catálogo, inserido entre Le régiment (no 24) e Une nuit terrible (no 26). O filme integra a fase de actuality films — cenas cotidianas captadas com câmera fixa — que Méliès produziu nos primeiros anos de atividade cinematográfica, antes de se consagrar pelos efeitos especiais e pelos trick films.

Os *bohémiens* na França de 1896 O termo *bohémiens* era a denominação corrente na França do século XIX para o povo romani — os ciganos —, em referência à crença errônea de que seriam originários da Boêmia. Em 1896, os acampamentos de *bohémiens* eram uma presença visível na periferia de Paris, em particular na chamada *Zone* — a faixa de terreno em torno das muralhas de Luís Filipe e das muralhas de Thiers, construídas entre 1841 e 1844, onde a construção era proibida. Esse território vago abrigava roulottes, barracas e habitações precárias de grupos marginalizados; os *bohémiens* constituíam uma minoria dentro da população diversa da *Zone*, ao lado de operários, catadores de lixo e trabalhadores domésticos.

Representação dos *bohémiens* nas artes A imagem dos *bohémiens* na arte e na literatura francesa do final do século XIX era ambivalente — oscilando, conforme apontado pelo historiador da arte Sylvain Amic, entre a romantização da vida livre e nômade e a hostilidade às suas práticas cotidianas. A tradição pictórica remontava ao século XV: de Leonardo da Vinci ao Caravaggio, passando pelas gravuras de Jacques Callot no século XVII — que inspirariam mais tarde os "Bohémiens en voyage" de Charles Baudelaire nas Flores do Mal — a figura do *bohémien* oscilava entre o anjo e o demônio, entre a sensualidade e a marginalidade. No século XIX, a ópera Carmen (1875), de Georges Bizet, baseada no romance homônimo de Prosper Mérimée de 1845, consolidou na cultura popular francesa a figura da cigana sedutora e perigosa. Ao mesmo tempo, cronistas conservadores denunciavam as feiras populares que, segundo eles, transformavam as avenidas parisienses em "acampamentos de *bohémiens*" — sinal de desordem e contaminação moral. É nesse contexto de representação dúbia que Méliès filma *Campement de bohémiens*: um registro documental, sem narrativa nem encenação, de um acampamento real — abordagem radicalmente distinta da que a Gaumont adotaria em 1900, quando produziu um filme narrativo de seis cenas centrado no estereótipo do rapto de uma criança por *bohémiens*.

Preservação Campement de bohémiens é atualmente considerado um filme presumidamente perdido: nenhuma cópia é conhecida por ter sobrevivido. A perda é atribuída à destruição deliberada que o próprio Méliès promoveu em 1923, quando, em meio à ruína financeira, fundiu os negativos de grande parte de sua coleção para recuperar a prata contida na emulsão, e à fragilidade das películas de nitrato de celulose da época. De aproximadamente 520 filmes que Méliès dirigiu entre 1896 e 1912, estima-se que apenas 231 cópias chegaram à atualidade em alguma forma.

Referências

Ligações externas Campement de bohémiens no IMDb