Uma muralha de 4 mil anos no Marrocos está ajudando arqueólogos a preencher uma lacuna importante da pré-história do Magrebe. Escavações em Oued Beht revelaram um conjunto com parede antiga, terrapleno e fosso, datado do segundo milênio a.C. Porém, a parte de pedra mais visível pertence a uma fase medieval posterior, detalhe essencial para entender o achado.
O que os arqueólogos encontraram em Oued Beht
Os pesquisadores identificaram no setor sul de Oued Beht uma sequência formada por parede antiga, terrapleno e fosso. A posição atravessa a crista onde o assentamento se desenvolveu, portanto o conjunto poderia controlar uma passagem natural pelo terreno. No entanto, os autores evitam tratar essa função defensiva como certeza absoluta.
A escavação também mostrou que o local passou por várias fases de construção, reparo e reutilização. Assim, a estrutura pré-histórica não corresponde simplesmente à grande parede de pedra observada hoje. Essa muralha mais robusta surgiu muitos séculos depois, quando ocupações medievais voltaram a modificar a área.
🏛️ 4º milênio a.C.: Oued Beht concentra intensa atividade do Neolítico Final.
🌿 2º milênio a.C.: Parede, terrapleno e fosso transformam o setor sul.
🚀 2026: O estudo detalha a cronologia e a possível função defensiva.
Como uma estrutura tão antiga foi datada
Carvão arqueológico ajuda a estabelecer a cronologia - Imagem criada por inteligência artificial (ChatGPT / Olhar Digital)
A equipe obteve 24 novas datações por radiocarbono nas trincheiras escavadas em 2023, calibradas com a curva internacional IntCal20. Entre elas, amostras ligadas à parede inicial produziram intervalos de 2010 a 1747 a.C. e 1896 a 1623 a.C.. Por isso, os pesquisadores situam essa fase construtiva no começo do segundo milênio a.C., muito antes da reutilização medieval do local.
Três análises em sementes carbonizadas de plantas domesticadas situaram preenchimentos do fosso por volta de 1500 a 1300 a.C. Enquanto isso, o terrapleno mais antigo conhecido nessa área também pertence ao segundo milênio a.C. O conjunto indica, portanto, uma história de construção, reforço e manutenção distribuída por diferentes momentos da ocupação pré-histórica.
O fosso ajuda a explicar a função do conjunto
O fosso pré-histórico identificado pela equipe mede cerca de 1,84 metro de largura e pelo menos 65 centímetros de profundidade. Ele corre paralelo às outras estruturas lineares, criando uma combinação compatível com sistemas de fechamento ou defesa. A equipe também recuperou cerâmica pré-histórica e um machado de pedra polida, enquanto a base completa do corte permaneceu inacessível.
Os próprios autores consideram plausível interpretar o conjunto como fosso defensivo, terrapleno e parede superior, especialmente por sua posição transversal na crista. Porém, outras finalidades de divisão ou delimitação continuam possíveis neste estágio da pesquisa. Essa cautela importa porque uma mesma estrutura pode ter recebido funções diferentes conforme Oued Beht mudava ao longo dos séculos.
Por que a descoberta chama atenção no norte da África
O Conselho Nacional de Pesquisas da Itália apresenta o achado como o mais antigo sistema defensivo conhecido no norte da África fora do vale do Nilo. Em comunicado de setembro de 2026, o Ministério das Relações Exteriores da Itália usa formulação semelhante e destaca sua idade estimada. Portanto, a comparação depende do registro arqueológico conhecido até agora, e não de uma lista definitiva de todas as estruturas antigas.
O estudo científico também amplia a cronologia de Oued Beht, antes mais associada ao Neolítico Final e às ocupações do quarto milênio a.C. A campanha de outubro e novembro de 2023 trouxe evidências claras de atividade durante o segundo milênio a.C. Para os pesquisadores, isso ajuda a reconstruir padrões de ocupação, uso do espaço e organização social no noroeste marroquino.
Vestígio
O que a escavação mostrou
Fosso
1,84 metro de largura e pelo menos 65 centímetros de profundidade.
Parede inicial
Datações situam sua construção no começo do segundo milênio a.C.
A muralha medieval não deve ser confundida com a fase pré-histórica
A sequência arqueológica revela uma reutilização intensa do lugar muitos séculos depois da fase pré-histórica. Entre os séculos XI e XIII d.C., novas obras reforçaram a área, incluindo uma parede de pedra mais bem preservada. Assim, a aparência atual não reproduz exatamente o sistema construído durante a Idade do Bronze nem permite datá-lo apenas pela superfície.
Essa diferença ajuda a evitar uma leitura enganosa do achado, porque a antiguidade depende dos contextos escavados e das datações. O estudo publicado na revista Libyan Studies detalha essa sobreposição de fases. Já o Conselho Nacional de Pesquisas da Itália e o Ministério das Relações Exteriores da Itália destacam a relevância regional da descoberta.
Uma defesa antiga com perguntas ainda abertas
A descoberta mostra que comunidades do noroeste marroquino ergueram obras complexas há milhares de anos, mas a função exata ainda exige novas escavações. O valor do sítio está justamente nessa combinação entre evidência sólida e questões em aberto. Se você acompanhar as próximas pesquisas em Oued Beht, poderá ver como novas camadas refinam essa história.
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