Política / Eleições 2026

Estratégia é responder a provocações sem prolongar embates; em treinamento, auxiliares chegaram a interpretar o próprio candidato para mostrar como deveria reagir
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Lula (PT) e Flávio Bolsonaro (PL). — Foto: Edilson Dantas / Maria Isabel Oliveira / O Globo
O senador e candidato à Presidência Flávio Bolsonaro (PL) foi orientado por aliados a evitar contra-ataques aos adversários no debate da TV Globo nesta quinta-feira, mesmo se for provocado por rivais que disputam o mesmo eleitorado. A estratégia é responder às críticas sem prolongar os embates e tentar redirecionar o confronto para o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), que não participará do encontro, numa tentativa de preservar pontes com nomes da direita que podem se tornar aliados em um eventual segundo turno.
Nos treinamentos, a equipe simulou situações em que Flávio era atacado pelos demais candidatos e ensaiou formas de encerrar a troca de acusações depois de apresentar sua defesa. A orientação é responder ao questionamento e, na sequência, usar frases de transição como “mas o que o eleitor quer saber mesmo é...” ou “nós concordamos que o atual governo...” para mudar o foco da discussão.
As simulações chegaram a inverter os papéis. Além de escalar um integrante da equipe para interpretar Lula, como mostrou O GLOBO nesta quinta-feira, auxiliares também assumiram o papel do próprio Flávio para demonstrar ao candidato como deveria reagir diante de provocações.
A estratégia ganhou peso depois que Lula confirmou que não participará do debate. Sem o presidente no palco, integrantes da campanha avaliam que Flávio tende a se tornar alvo dos adversários que disputam votos no campo da direita e precisam marcar diferenças em relação ao candidato do PL na última grande vitrine antes do primeiro turno.
O cálculo vale especialmente para Ronaldo Caiado (PSD), Augusto Cury (Avante) e Romeu Zema (Novo), cujos eleitores passaram a ser alvo direto da ofensiva de Flávio pelo chamado voto útil. O quarto candidato que Flávio mira o eleitorado na segunda fase da eleição, Renan Santos (Missão), não foi convidado para participar do encontro por não cumprir os requisitos da lei eleitoral. Neste contexto, por desejar atrair esses votos, o candidato quer evitar confrontos pessoais que possam dificultar uma aproximação depois de domingo.
A orientação, por isso, é separar a defesa do contra-ataque. Flávio não deverá deixar acusações sem resposta, mas deve evitar usar a réplica para ampliar o confronto com quem o questionou. A ideia é rebater o conteúdo e, sempre que possível, deslocar a discussão para Lula ou para o governo federal.
A estratégia será testada caso sejam explorados temas que a própria campanha identifica como vulnerabilidades. Durante a preparação, Flávio treinou respostas sobre sua relação com o ex-banqueiro Daniel Vorcaro e sobre a controvérsia envolvendo Nossa Senhora Aparecida.
No caso de Nossa Senhora, o candidato irá reafirmar seu respeito às diferentes religiões e evitar uma nova escalada, depois de aliados avaliarem que sua reação inicial contribuiu para prolongar a crise. Sobre Vorcaro, Flávio ensaiou respostas para questionamentos a respeito do filme “Dark Horse”, sobre Jair Bolsonaro, para o qual buscou financiamento junto ao então banqueiro. Ele deve seguir a linha de que o repasse ocorreu dentro da legalidade e não configura proximidade com o dono do Master.
Com Lula ausente, Flávio também treinou perguntas dirigidas ao púlpito vazio do presidente. A intenção é manter o petista como principal alvo mesmo sem sua presença no estúdio e evitar que o debate se transforme numa sucessão de confrontos entre candidatos dos quais o PL poderá buscar apoio já na próxima semana.
A preservação dessas pontes também está no planejamento para depois da votação. Flávio prepara para a noite de domingo, logo após a apuração do primeiro turno, um pronunciamento no qual são esperados acenos aos adversários. Caso avance para a etapa seguinte da disputa, a ideia é fazer um apelo pela união de candidaturas que, apesar das diferenças entre si e dos embates travados durante a campanha, têm em comum a oposição ao governo Lula.
A orientação de contenção no debate também responde a uma das preocupações que provocaram divisão entre aliados sobre a participação de Flávio. Integrantes da campanha chegaram a aconselhá-lo a desistir caso Lula não comparecesse, sob o argumento de que o senador ficaria exposto aos ataques dos demais candidatos sem ter no palco seu principal adversário.
Flávio decidiu manter a presença. Pesaram a confiança transmitida pelo marqueteiro Duda Lima ao candidato sobre sua preparação para o confronto e o receio de que uma desistência, depois de confirmar participação, fosse interpretada como recuo.
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