Tigres do Brasil: por que um clube com estrutura de time grande sumiu do cenário do Rio?

Entre 2008 e 2009, a inauguração do complexo esportivo do Tigres do Brasil fez barulho no futebol do Rio de Janeiro. O bom estádio com capacidade para 11 mil pessoas e o centro de treinamento distribuído em 210 mil m², com cinco campos de medidas oficiais, viraram notícia nos principais veículos.

"É o primo rico dos pequenos", sentenciou o Jornal do Brasil, em artigo de meia página.
Menos de 20 anos depois, o clube praticamente desapareceu do cenário do futebol carioca. O time joga a quinta divisão do Rio, num cenário que não condiz com a estrutura física de primeira à disposição de jogadores e funcionários. O que aconteceu? O ge foi a Xerém para descobrir.
Na época da inauguração, o plano dos donos do clube para o vale rodeado pela Mata Atlântica em Xerém, distrito de Duque de Caxias, era ambicioso: construir mais três campos, ginásio poliesportivo, heliporto e até um hotel cinco estrelas no ponto mais alto do terreno. O projeto continua exposto numa sala com vista panorâmica para o CT — e comprova que boa parte dele ficou só no papel.
Veja imagens do centro de treinamento do Tigres do Brasil, em Xeré
Em 2009, René Simões, então treinador do Fluminense, chegou a decretar, em tom crítico, em relação aos clubes do Rio e seus centros de treinamento:
"O único que tem um ótimo CT é o Tigres".
Na época, o novato Tigres do Brasil se preparava para jogar a Série A do Carioca pela primeira vez. O clube sentiu o peso da estreia e terminou em último lugar do grupo no primeiro turno. Mas se recuperou no segundo, com direito a empate com o Flamengo no Maracanã e goleada por 5 a 0 para cima do Boavista.
Portão principal do centro de treinamento do Tigres do Brasil, em Xerém — Foto: Tébaro Schmidt / ge
A equipe de Caxias foi rebaixada em 2010. Entre idas e vindas, foram quatro participações na elite. A estrutura atraía nomes conhecidos. Em 2017, por exemplo, o treinador do time no início do Carioca era Felipe, atual diretor técnico do Vasco. Seu auxiliar era Pedrinho, hoje presidente do Vasco. Eles deixaram o Tigres depois de sete jogos. Aquela, aliás, foi a última vez do Tigres na Série A do Carioca.
Complexo ainda impressiona
Em 2009, Jornal do Brasil tratava o Tigres do Brasil como "o primo rico dos pequenos" — Foto: Arquivo
Como está o complexo em 2026? No meio da singela Estrada Rio D'Ouro, que corta o distrito predominantemente rural da cidade da Baixada Fluminense, as torres gigantescas dos refletores anunciam a presença de uma estrutura esportiva. A entrada ainda é imponente, mas mostra os primeiros sinais de descuido, com sujeira nas pedras do muro e o escudo do Tigres apagado no letreiro.
O centro de treinamento, na época da inauguração, era considerado o maior e mais moderno do Rio de Janeiro. Entre os quatro grandes, no que diz respeito à estrutura física, o CT ainda bate de frente com os locais onde Botafogo, Fluminense e Vasco treinam. O Flamengo, com altos investimentos no Ninho do Urubu nas últimas duas décadas, nada de braçada nesse sentido.
Além dos cinco campos de medidas oficiais e do Estádio Los Larios, o Tigres conta com uma quadra de treino para goleiros, dois campos de areia, academia, refeitório e oito chalés para alojamento de atletas.
— Essa é uma estrutura de clube grande, de clube que tem uma receita recorrente maior — resumiu o presidente do clube, Aristóteles Larios, que guiou a reportagem em uma breve caminhada pelas dependências do complexo.
— Quando você acaba não conseguindo ter certas fontes de renda, como tem numa transmissão, você depende basicamente do jogador da base, que você consegue negociar. Isso ainda ajuda o clube, a gente teve jogadores recentemente negociados — acrescentou.
Seja por meio do mecanismo de solidariedade ou de acordo de participação no direito de atletas, o Tigres recebeu parte do dinheiro nas transferências de Deyverson (ex-Palmeiras e Atlético-MG), Wallace Fortuna (ex-Cruzeiro, Monaco e Lazio) e Jefté (do Palmeiras), por exemplo. Todos eles passaram pela base do clube de Caxias.
"Mas para fazer isso de forma competitiva, com clube de futebol e mantendo estrutura, você precisa de muito mais, na verdade. E aí você precisa de investidor, investidor sério", conclui Ari, como é conhecido o presidente.
Aristóteles Larios, o Ari, presidente do Tigres do Brasil, sentado na arquibancada do Estádio Los Larios — Foto: Tébaro Schmidt / ge
São vários os indícios de falta de manutenção no local, como buracos nas grades de proteção e o telhado de um dos prédios arrancado depois de uma forte ventania. O tigre desenhado com peças de azulejo foi arrancado do fundo da piscina vazia.
Mesmo assim, o complexo continua perfeitamente funcional. Os cinco campos de treinamento são bem cuidados e estão à disposição dos jogadores, e o estádio tem os laudos em dia e liberação do Corpo de Bombeiros para receber até 5.088 pessoas.
O ge visitou o CT em uma sexta-feira à tarde, ao mesmo tempo em que duas categorias de base treinavam. Entre funcionários, atletas e familiares, havia mais de 200 pessoas. Nos fins de semana, como os campos recebem jogos de competições oficiais de base, são centenas e centenas de pessoas circulando pelo local.
"A gente escorregou bastante"
O Tigres do Brasil foi fundado em 2004 por Aristóteles e seu pai, Miguel Larios, dono da Poland Química, uma gigante do setor de produtos químicos para agronegócio com sede em Xerém. A construção do CT e do estádio foi integralmente custeada por investimento privado, com o objetivo de que a equipe andasse com as próprias pernas a partir do momento de sua profissionalização.
Em outras palavras, a família Larios garante que não tira dinheiro do próprio bolso para colocar no clube.
Arquibancada do Estádio Los Larios, do Tigres do Brasil, em Xerém — Foto: Tébaro Schmidt / ge
Nesses cerca de 20 anos, o Tigres buscou parceiros para tocar o futebol. Uma grande distribuidora de Xerém injetou verba como patrocinadora principal nos primeiros anos. Em seguida, o clube fechou parceria com o Corinthians para se tornar o hub da equipe paulista no Rio de Janeiro, num acordo que previa intercâmbio de atletas e colaboração no processo de captação de jovens talentos — por esse motivo, o Tigres removeu a cor verde do escudo e do uniforme.
Por último, entre 2018 e 2024, a gestão do clube foi entregue nas mãos de uma empresa, a Soccer Stars Marketing Esportivo, que também toca o futebol da Matonense, de São Paulo, e do Itumbiara, de Goiás. No acordo, havia a obrigação contratual de destinar 20% do orçamento anual para manutenção e melhoria do complexo em Xerém, por exemplo, mas os investimentos não foram vistos na prática.
"Você não consegue controlar necessariamente a forma como essas pessoas estão gerindo", lamenta Ari.
Imagem aérea do CT do Tigres do Brasil, em Xerém, exposta em uma das salas do complexo — Foto: Tébaro Schmidt / ge
— Esportivamente, acontece, você não é obrigado a ganhar todos os jogos sempre, não é só dinheiro que ganha. Mas principalmente no conceito de como você está gerindo, cuidando dessa estrutura, fazendo esse clube se tornar autossustentável, a gente escorregou bastante nesse aspecto, na busca por parcerias que não deram certo. E isso esportivamente acaba tendo uma consequência.
O Tigres se encheu de dívidas trabalhistas nesse período, com motivos que vão do atraso no pagamento dos salários até a falta de recolhimento do FGTS. De acordo com a certidão de débitos trabalhistas, disponível para consulta no Tribunal Superior do Trabalho (TST), o clube foi condenado em 44 processos de 2013 até agora. O número não considera os casos ainda pendentes de julgamento.
Por conta disso, o Tigres se encontra atualmente impedido de inscrever novos jogadores. A direção tinha planos de disputar a Série C do Carioca Sub-20, que começou este mês, e chegou a dar início à preparação dos garotos, mas teve sua participação suspensa já que não consegue dar entrada nos registros.
Centro de treinamento do Tigres do Brasil, em Xerém, segue funcional, mas tem sinais de pouca manutenção — Foto: Tébaro Schmidt / ge
Procura-se parceiro
Quando a parceria com a Soccer Stars terminou, em 2024, o Tigres do Brasil entrou com um pedido de licença na federação e ficou dois anos sem disputar competições oficiais. Voltou na atual temporada para juntar os cacos na Série C.
Com uma política de poupar gastos, a direção montou uma equipe jovem, com muitos jogadores da base. Classificou-se para as quartas de final para enfrentar o Campos, com a vantagem do empate no confronto. O vencedor garantiria o acesso para a Série B2. Mas o Tigres perdeu o primeiro jogo por 3 a 2 fora de casa e, no Los Larios, empatou por 0 a 0.
Aristóteles Larios, presidente do Tigres do Brasil, mostra o estádio e o complexo em Xerém para o ge — Foto: Tébaro Schmidt / ge
O clube vai tentar de novo no ano que vem. Enquanto isso, mantém as portas abertas para novos parceiros no futebol, embora com o olhar muito mais criterioso devido às experiências recentes.
— Nos últimos 10 anos, muita coisa aconteceu que atrapalhou o andamento do clube, não só esportivamente. A gente, nos últimos dois, três anos, está com um olhar de ajeitar a casa devagarzinho para criar condições de poder evoluir novamente. Esportivamente, não é o cenário que a gente gostaria de estar e nem que a gente imagina que deveria estar, mas faz parte do jogo — acredita Aristóteles.
— Obviamente a gente tem que ser mais criterioso com quem se aproxima. Desde que seja um trabalho sério, não pode ser uma coisa achando que vai ganhar no mês que vem, tem que ser algo que efetivamente possa nos respaldar e nos dar segurança jurídica, financeira etc de que o clube vai evoluir e não se deteriorar, como acabou acontecendo — conclui ele.


