Cientista política analisa força de Tarcísio e possível vitória em 1º turno em SP :

O governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), chega à reta final da disputa pelo Palácio dos Bandeirantes em uma posição confortável e com possibilidade de encerrar a eleição já no primeiro turno. Para a cientista política Denilde Holzhacker, professora de Relações Internacionais da ESPM, a vantagem do governador é resultado de uma combinação de fatores que envolvem o peso de estar no cargo, a força construída no interior do Estado e a capacidade de transitar entre diferentes setores da direita sem ficar totalmente associado ao bolsonarismo.

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"Um elemento importante é que ele é governo. Então, já como governador, você sempre tem uma vantagem expressiva", afirma Denilde. Segundo ela, Tarcísio também se beneficia de uma administração que mantém "uma aprovação relativamente boa" e não enfrenta "grandes problemas de desaprovação".

Tarcísio de Freitas (Republicanos) busca seu segundo mandato como governador de São Paulo

Foto: Divulgação / Estadão

Essa avaliação aparece nos números da pesquisa Quaest, divulgada nesta quarta-feira, 23, e registrada no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) sob protocolo SP-02456/2026. Tarcísio aparece com 44% das intenções de voto, enquanto Fernando Haddad (PT) performa com 27%. Em um eventual segundo turno, Tarcísio também aparece à frente nas pesquisas.

Para a cientista política, Tarcísio teria conseguido, ao longo do mandato, preservar sua imagem diante de episódios que poderiam atingir a administração e estreitar a relação política com prefeitos. "Ele conseguiu estabelecer e fazer uma ação junto aos prefeitos, principalmente do interior."

De acordo com Denilde, essa capilaridade é um dos elementos que ajudam a explicar a liderança de Tarcísio. "A força do interior é um fator importante para garantir que ele esteja na dianteira, e com um cenário até de uma possibilidade de ganhar no primeiro turno."

Entre o bolsonarismo e uma imagem própria

Outro componente da estratégia de Tarcísio foi a maneira como ele administrou sua relação com o bolsonarismo. Embora tenha sido eleito governador em 2022 com o apoio de Jair Bolsonaro (PL) e seja um político da direita, Tarcísio procurou, em diferentes momentos, evitar uma associação completa com a candidatura presidencial de Flávio Bolsonaro (PL).

"Ele conseguiu nesse processo ter essa capacidade de articulação, estar na campanha bolsonarista, mas também não estar totalmente associado e não trazer o que é o ponto negativo do bolsonarismo no Estado de São Paulo", avalia.

A especialista pondera, porém, que isso não significa que Tarcísio tenha conquistado uma independência eleitoral completa em relação ao bolsonarismo. Para ela, o governador foi "hábil" ao construir uma atuação própria sem romper com o campo político que o ajudou a chegar ao Palácio dos Bandeirantes.

"Como governador, de fato, ele tem tentado ser cada vez mais independente, tentado ter uma própria lógica de atuação, que não fique tão a reboque do que possa ser a lógica nacional e a lógica do próprio bolsonarismo."

Essa tentativa de diferenciação também aparece na imagem que Tarcísio procura construir como gestor. Segundo avalia, o governador tenta apresentar "um ar de ser um político muito mais técnico e menos voltado para as questões de envolvimento da política no dia a dia". "Ele tenta trazer o debate da campanha para uma discussão mais técnica, para também não se envolver tanto nas discussões mais partidárias", diz.

O que aproxima Tarcísio do eleitor bolsonarista
Apesar da tentativa de construir uma identidade própria, Tarcísio mantém pontos de convergência com o eleitorado bolsonarista. "A agenda de costumes se aproxima. Ele vem de uma aproximação com os evangélicos, então várias pautas que são importantes para esse campo ideológico ele apoia", afirma Denilde. Entre os exemplos está a política educacional. A professora cita a implantação de escolas cívico-militares como uma agenda associada aos apoiadores do ex-presidente.
A segurança pública, por outro lado, aparece como um dos pontos mais frágeis dessa gestão. Na avaliação da cientista política, embora o tema faça parte do discurso de Tarcísio e esteja alinhado à defesa de uma atuação mais dura contra o crime organizado, os resultados e a percepção da população representam um problema para o governador.
"Acho que essa é a agenda que é a mais frágil do ponto de vista da agenda política dele enquanto governador, porque os índices pioraram no Estado e a percepção de segurança piorou no Estado como um todo."
Ainda assim, Denilde ressalta que a oposição também enfrenta dificuldades para transformar as críticas à segurança em vantagem eleitoral. "O grande problema é que, mesmo sendo atribuído ao Tarcísio não ter entregue tantos resultados na área de segurança, o Haddad também não tem conseguido demonstrar que faria diferente."
Antipetismo ajuda a conter avanço de Haddad
O cenário eleitoral paulista também é influenciado pelo histórico de antipetismo do Estado, especialmente no interior. Na avaliação da professora, esse fator dificulta o crescimento do ex-ministro Fernando Haddad, principal adversário de Tarcísio na corrida pelo governo paulista. "A visão, principalmente no interior, uma visão antipetista, acaba influenciando a campanha de Haddad", pondera a especialista, citando que Lula também tem dificuldades no Estado.
A campanha de Haddad tem explorado temas como as privatizações, especialmente a da Sabesp, e problemas em áreas da administração estadual. No primeiro semestre de 2026, o número de falhas em trens e metrôs de São Paulo cresceu 27% em relação ao mesmo período de 2025, segundo levantamento da produção da TV Globo. As linhas privatizadas registraram os maiores aumentos. Além disso, pesquisa Datafolha divulgada em julho mostra que 54% dos eleitores paulistas são contra a privatização da Sabesp, concluída em julho de 2024.
Para a cientista política, entretanto, a eleição para governador em São Paulo apresenta uma dificuldade adicional: o Estado é muito regionalizado, e nem todas as demandas relacionadas ao governo estadual são percebidas da mesma maneira em diferentes regiões.
Na reta final, ela considera que Haddad ainda pode ganhar espaço com a ampliação da articulação política e o fortalecimento das campanhas proporcionais. "O Haddad tem aí uma capacidade de articulação com os diferentes grupos."
Vitória em 1º turno muda o jogo para Flávio
A eventual vitória de Tarcísio no primeiro turno tem uma dimensão que ultrapassa a disputa pelo governo paulista. Para Denilde, a conclusão antecipada da eleição estadual retiraria de Lula e de Flávio Bolsonaro um importante palanque no Estado para o segundo turno presidencial.
"A eleição finalizada em São Paulo no primeiro turno tira o palanque tanto para o Lula quanto para o próprio [Flávio] Bolsonaro", afirma.
Por isso, a força eleitoral de Tarcísio também interessa à campanha de Flávio. Segundo a professora, o apoio do governador é "essencial" para manter mobilizado o eleitorado de direita caso a disputa presidencial avance para uma segunda etapa. "Para que, mesmo que não haja um segundo turno em São Paulo para governador, o eleitor que já se mobilizou no primeiro continue motivado a apoiar o candidato."
A aproximação mais recente entre Tarcísio e a campanha de Flávio, portanto, teria uma dupla explicação. De um lado, o governador estaria em uma posição suficientemente confortável para ampliar pontes políticas e pensar na própria projeção. De outro, haveria pressão do bolsonarismo para que ele auxilie na disputa presidencial, diante da importância do eleitorado paulista para os candidatos à Presidência. Segundo dados do TSE, São Paulo é o maior colégio eleitoral do país, com 34,1 milhões de eleitores aptos a votar.
"Ele percebe que já está numa situação de vantagem muito mais confortável, então permite que possa fazer sinalizações, começar a pensar na sua projeção enquanto governador, já considerando a possibilidade de ser reeleito, então criar pontes com os diferentes atores políticos", avalia Denilde.
Tarcísio como nome nacional da direita
A consolidação de Tarcísio em São Paulo também reforça a possibilidade de que ele se torne um dos principais nomes da direita para uma futura disputa presidencial. A professora, no entanto, pondera que o cenário ainda dependerá do resultado das eleições deste ano e da composição política que surgirá a partir de 2027.
"Todo governador do Estado de São Paulo é um potencial sempre de candidato pelo tamanho do Estado, pela capacidade que o Estado tem de ter peso nacional e ter peso no debate nacional."
Foi justamente essa dimensão que fez Tarcísio ser considerado, antes mesmo da definição da atual disputa presidencial, um dos principais nomes da direita para enfrentar Lula. Para a cientista política, o mandato no governo paulista pode ampliar ainda mais essa capacidade de articulação. "Com certeza, qualquer um que ganhar no Estado de São Paulo, tanto o Tarcísio ou Haddad, vão ter aí uma possibilidade de ter uma participação e um peso eleitoral importante para os próximos anos."
A professora ressalta, porém, que a definição das próximas lideranças nacionais dependerá de outros fatores, como a composição do Congresso, os desdobramentos da crise no Supremo Tribunal Federal e o desempenho de outros governadores que podem ganhar projeção nacional a partir das eleições de 2026.
No caso de Tarcísio, uma eventual reeleição em primeiro turno representaria não apenas a confirmação de sua força eleitoral em São Paulo, mas também um novo ponto de partida para uma atuação política nacional. O principal desafio, segundo Denilde, será medir até que ponto essa projeção poderá ser construída de forma própria, sem depender da estrutura e da anuência da família Bolsonaro.
"Agora é o momento de testar o quanto ele tem voo próprio ou o quanto ainda precisa da anuência da família Bolsonaro para se projetar num ponto de vista mais nacional", destaca.


