Pulsa Explica: Como funcionam as canetas para obesidade? Tudo o que você precisa saber antes do uso

Canetas para obesidade ajudam a proteger os rins e o coração? Veja o que se sabe
Canetas para obesidade ajudam a proteger os rins e o coração? Veja o que se sabe · Imagem: Source: www.estadao.com.br

Medicamentos análogos ao hormônio GLP-1 aumentam a saciedade e podem levar à perda de peso, mas não devem ser usados indiscriminadamente. Crédito: edição: Joaquim Macruz

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Os medicamentos análogos ao GLP-1 se tornaram extremamente populares nos últimos anos por sua eficácia no tratamento da obesidade e do diabetes. Mas as moléculas também estão sendo usadas no tratamento de condições renais e cardíacas.

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De acordo com dados globais da Ipsos Healthcare, cerca de um em cada três pacientes com doença renal crônica ou insuficiência cardíaca já recebe algum medicamento dessa classe. O número vem de uma pesquisa da empresa com 431 médicos, sendo 220 nefrologistas e 211 cardiologistas.

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“Os dados mostram que o uso do GLP-1 está crescendo de forma consistente na prática clínica, deixando de ser visto apenas como uma terapia para diabetes e obesidade e passando a integrar o cuidado cardiorrenal em combinação com outros tratamentos já estabelecidos”, destaca Adriana Ghobril, líder da área de healthcare da Ipsos no Brasil.

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A base científica que respalda a prática médica vem de grandes ensaios clínicos internacionais, com destaque para dois estudos centrais: o FLOW, que avaliou o comportamento do GLP-1 em casos de doença renal, e o SELECT, focado em pacientes com doenças cardiovasculares.

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Efeitos do GLP-1 vão muito além da perda de peso Foto: Kateryna/Adobe Stock Images

GLP-1 e saúde dos rins

O FLOW avaliou o uso semanal de semaglutida na dose de 1 mg, comparada a placebo, em 3.533 pacientes com diabetes tipo 2 e doença renal crônica (DRC). O tratamento esteve associado a uma redução de 24% nos eventos renais mais graves e de 20% no risco de morte.

“Isso significa menos risco de um paciente chegar à diálise, ao transplante ou à falência renal”, diz Adriana.

O FLOW também identificou que a semaglutida reduziu a albuminúria (quantidade de proteína eliminada na urina) em cerca de 40% e apresentou indícios de ação anti-inflamatória. A análise observou uma redução sustentada de cerca de 30% na proteína C reativa de alta sensibilidade (hsCRP), um marcador de inflamação no organismo.

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O FLOW não definiu o momento ideal para iniciar o medicamento nem demonstrou benefícios em pacientes que já faziam diálise. Ainda assim, o nefrologista José Moura Neto, presidente da Sociedade Brasileira de Nefrologia (SBN), defende que o agonista de GLP-1 seja introduzido logo no início do tratamento renal, porque a função perdida com a doença renal crônica geralmente não se recupera.

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Ricardo Cohen, líder do Centro Especializado em Obesidade e Diabetes do Hospital Alemão Oswaldo Cruz, concorda. “Cada parte do rim que se perde não se recupera. Por isso, quanto antes protegemos o órgão, mais função preservamos ao longo da vida.”

Em pacientes mais tardios, também foram observados efeitos positivos, segundo Cohen. “Quando olhamos os pacientes separados pela gravidade da doença, a proteção foi semelhante em todos os grupos: nos que tinham função renal ainda preservada e nos que já tinham perdido boa parte dela. Nos casos mais avançados, o número de pacientes beneficiados tende a ser até maior, porque o risco de complicações é mais alto”, detalha.

GLP-1 e coração

O outro estudo, o SELECT, investigou a eficácia da semaglutida na dose de 2,4 mg semanal na redução do risco cardiovascular em 17.604 pacientes com sobrepeso ou obesidade e doença cardiovascular estabelecida, mas sem histórico de diabetes. Os voluntários foram acompanhados por um período médio de 39,8 meses.

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A pesquisa identificou uma redução de 20% em eventos cardiovasculares graves. Também foi percebido um efeito anti-inflamatório expressivo: houve uma redução de 37,8% na proteína hsCRP.

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O tratamento com o GLP-1 também reduziu a pressão arterial sistólica em cerca de 3,3 mmHg. Análises secundárias demonstraram ainda reduções nas hospitalizações e consultas de emergência por insuficiência cardíaca.

O que explica os efeitos?

Uma dúvida que surge diante desses resultados é: o medicamento age diretamente sobre os órgãos (coração e rins) ou os efeitos decorrem da perda de peso?

Segundo Nilton Carneiro, cardiologista do Hospital Santa Catarina - Paulista, a perda de peso ajuda, mas não parece explicar sozinha toda a proteção ao coração e aos rins. “Ao melhorar o peso, a glicose e a pressão arterial, (o medicamento) já diminui parte da sobrecarga sobre esses órgãos. Também há evidências de redução da inflamação, que participa tanto da doença das artérias quanto da lesão renal”, explica.

“Então, provavelmente estamos vendo uma combinação de mecanismos. Isso é diferente de afirmar que o remédio age diretamente nas células do coração e dos rins e que essa ação explica tudo. Os estudos mostram com mais segurança o benefício clínico; a participação de cada mecanismo ainda está sendo esclarecida”, adiciona.

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No caso dos rins, Cohen destaca outro estudo, o REMODEL, que usou ressonância magnética e biópsias para investigar o mecanismo do medicamento. Os pesquisadores observaram uma queda de cerca de 40% na perda de proteína pela urina, um marcador importante de lesão renal.

Também houve menos gordura acumulada ao redor do rim, menor resistência à passagem do sangue nas artérias renais e menos células inflamatórias no tecido renal. A fibrose, a “cicatriz” que o rim forma ao longo da doença, não avançou.

“Um ponto a ser destacado é que as medidas principais desse estudo, oxigenação e fluxo de sangue no rim, não mudaram de forma significativa. Ou seja, o medicamento parece atuar sobretudo reduzindo a inflamação e melhorando os vasos, e não ‘consertando’ o rim de uma vez”, detalha.